Robert Sapolsky é neurocientista, primatólogo e professor de biologia na Universidade de Stanford, conhecido pelos seus estudos sobre stresse, comportamento humano e influência da biologia na tomada de decisões. Além da sua pesquisa em laboratório, passou décadas a estudar babuínos em África, investigando os efeitos do stresse crónico. É autor de vários livros, como Comportamento e Determinado, publicados em Portugal pela Temas e Debates.
É um neurocientista e primatólogo. Não é comum ver estas duas áreas científicas juntas.
Para mim, começaram por estar próximas, dentro do tema da biologia do stresse. No laboratório, a minha atenção eram as hormonas do stresse e os seus efeitos no cérebro ao longo da vida, enquanto no meu trabalho de campo tentava perceber porque alguns organismos lidam melhor com o stresse do que outros e qual o papel da hierarquia e do estatuto social nessa diferença. As duas áreas acabaram por convergir: qual é a consequência da hierarquia e do stresse no comportamento e qual é o preço que pagamos.
Estão claramente ligados, os sistemas sociais hierárquicos e o stresse?
Oh, completamente! Um babuíno de estatuto inferior tem níveis mais elevados de uma hormona do stresse produzida pelas glândulas suprarrenais. Passei quatro verões a tentar perceber se isso se devia a algo que se passava nas suprarrenais, na hipófise (que controla as suprarrenais) ou no hipotálamo (que controla a hipófise). Descobri que era o hipotálamo. E é esse mesmo circuito que está implicado nos níveis elevados de hormonas do stresse em pessoas com depressão clínica.
Um dos meus últimos estudos foi sobre os efeitos das hormonas do stresse na região do cérebro envolvida na empatia. Quando estamos sob stresse, o grupo de pessoas que consideramos merecedor de empatia torna-se muito restrito: passa a ser "eu" e pessoas como eu, que se parecem a mim, que rezam como eu, que falam como eu...
Porquê os babuínos?
Eles são ótimos para o que estudo! Vivem em savanas, onde é fácil observá-los, ao contrário do que acontece com os primatas de florestas tropicais, mas o mais relevante é o comportamento social. Vivem em grandes grupos, de 50 a 100 indivíduos. São grandes, têm caninos grandes, os leões e leopardos não se metem com eles e, por isso, não se preocupam muito com predadores. Como vivem num ambiente privilegiado, passam apenas cerca de três horas por dia a procurar alimento. Assim, têm nove horas de tempo livre em que tudo o que fazem é dedicar-se a ser terríveis uns para os outros, a gerar stresse social, a exercer domínio hierárquico, a descarregar frustração em alguém mais fraco simplesmente porque estão de mau humor. São mesquinhos, traiçoeiros, pouco confiáveis e horríveis.
Por isso, são incrivelmente interessantes, pois são ótimos modelos para o stresse das sociedades ocidentais: nós não ficamos stressados porque estamos num supermercado destruído a lutar pelas últimas três latas de comida; ficamos stressados porque temos o luxo ocidental de inventar preocupações e passamos o tempo a pensar nelas.
Portanto, no fundo, a civilização ocidental é a nossa própria savana, onde temos todo o luxo e todo o tempo para sermos terríveis uns para os outros.... É tentador extrapolar o que observamos em primatas para o comportamento humano. Até que ponto é legítimo fazê-lo?
Eles são exatamente como nós e, ao mesmo tempo, nada como nós. Por exemplo, os circuitos cerebrais que controlam a agressão, a empatia, o altruísmo ou a cooperação num babuíno são os mesmos que nos controlam a nós. Nesse sentido, somos iguais. Contudo, os humanos podem sentir emoções por uma personagem de um filme, ou enviar dinheiro a uma criança num país distante e, ao contrário de um babuíno, podemos matar alguém cuja cara nunca vimos. Podemos pensar nas pessoas que morreram em Pompeia e sentir "deve ter sido tão aterrador para elas" ou podemos ver um filme infantil e pensar "oh, não, a mãe do Bambi foi morta por um caçador!" Somos biologicamente idênticos, mas aplicamos essa biologia de formas completamente diferentes. Somos iguais quanto a "circuitos", mas diferentes na nossa capacidade de nos abstrair no espaço e no tempo.
Por vezes, tenta-se justificar comportamentos dizendo que têm uma base biológica. Por exemplo, "não podemos fazer nada quanto à agressividade, é biológica". Pode a biologia ser uma desculpa para comportamentos que não são desejáveis numa sociedade civilizada?
Só porque é assim que algumas coisas funcionam, não significa que devam funcionar dessa forma — isso é a falácia naturalista. Somos feitos de átomos, de moléculas orgânicas baseadas em carbono, temos neurónios, estamos sujeitos às mesmas regras da evolução... No entanto, mesmo seguindo as mesmas regras e características fundamentais, somos uma espécie única, tal como um babuíno é único.
Mas os humanos são uma espécie generalista: ao contrário da maioria dos outros primatas, podemos comer qualquer tipo de alimento, viver em qualquer tipo de ambiente, criar sociedades capitalistas e socialistas, ser monogâmicos ou poligâmicos. Somos a espécie mais violenta da Terra, mas também a mais altruísta, bondosa e cooperante. O mesmo indivíduo pode ser extremamente destrutivo e antissocial e, noutro contexto, pode ser um santo. E pode ser-se um terrorista para uma pessoa e um combatente pela liberdade para outra: muito depende do olhar de quem observa, e somos notoriamente confusos nesse aspeto.
Quando analisamos como tudo isto funciona — seja através da evolução ou do que estava a acontecer no nosso cérebro um milissegundo atrás — tudo o que somos é biologia, sobre a qual não temos nenhum controlo, e a sua interação com o ambiente, sobre o qual também não temos controlo. O que me leva a concluir que não existe livre-arbítrio. O livre-arbítrio é um mito. Podemos falar de responsabilidade num sentido instrumental (este homicídio foi cometido por esta pessoa ou por aquela, foi intencional ou acidental?), mas a noção de atribuir valor moral à culpa, ou punir, louvar e recompensar, faz tanto sentido quanto dizer que há valor moral na forma como uma minhoca se vira para um lado ou para o outro em resposta a estímulos alimentares. Culpa, recompensa, punição ou elogio são conceitos intelectual e moralmente vazios, porque nenhum de nós teve controlo sobre em quem se tornou.
“Somos a única espécie que pode aprender onde estão alguns dos "botões" e algumas das "alavancas" para essa mudança, permitindo-nos identificar ciclos recursivos nos quais podemos ser alterados de uma forma que nos leva a reforçar essa mesma mudança.”
Concorda que, para termos uma sociedade funcional, é necessário estabelecer critérios e promover mudanças?
Uma das ideias mais perigosas e erradas que se pode retirar da afirmação "não há livre-arbítrio" é pensar: "Ah, isso significa que nada pode mudar, por isso, nem vale a pena tentar, nem vale a pena um governo pensar que é sua responsabilidade." Mas as pessoas mudam, as culturas mudam! A mudança é perfeitamente compatível com a inexistência do livre-arbítrio, desde que se reconheça que não escolhemos mudar. Somos moldados pelas circunstâncias, e pelo tipo de pessoa em que, por acaso, nos tornámos ao viver essas circunstâncias. Mas, embora sejamos máquinas biológicas, somos a única espécie que tem consciência de que é uma máquina biológica. E somos a única espécie que pode aprender onde estão alguns dos "botões" e algumas das "alavancas" para essa mudança, permitindo-nos identificar ciclos recursivos nos quais podemos ser alterados de uma forma que nos leva a reforçar essa mesma mudança.
Consideremos alguns dos critérios que usamos para classificar grupos como "Eles": pode ser por terem uma cor de pele diferente, uma religião diferente, ou uma orientação sexual diferente, por exemplo. Isto faz sentido do ponto de vista biológico?
É quase inevitável que o cérebro humano faça distinções entre "Nós" e "Eles" e, automaticamente, pensamos que "Nós" somos muito melhores e mais merecedores do que "Eles".
Scanners cerebrais mostram que, perante imagens de rostos de "Nós" e "Eles", o cérebro responde de forma diferente. E isso acontece em milissegundos, antes mesmo de se estar ciente do que se está a ver! Bebés de dez meses já fazem distinções entre "Nós" e "Eles": o ritmo cardíaco acelera, libertam hormonas do stresse quando ouvem alguém falar com um sotaque diferente daquele a que estão habituados.
Estamos, de facto, programados para fazer distinções entre "Nós" e "Eles", mas o mais importante é que é incrivelmente fácil manipular-nos sobre quem pertence ao grupo do "Nós" e quem pertence ao grupo do "Eles". Como somos primatas "sofisticados", temos múltiplas categorias de "Nós" e "Eles" na nossa mente e a categoria que nos parece mais importante pode mudar num segundo — e pode ser facilmente manipulada. Somos uma espécie que, inevitavelmente, forma grupos, não gosta dos "Outros" e que pode ser inimaginavelmente cruel, sem sentir dor ou empatia em relação a "Eles", mas quem são "Eles" pode mudar num instante.
Estamos muito longe do ideal do “bom selvagem”, da ideia de que o ser humano nasce puro e é corrompido pela civilização, de que naturalmente não seríamos racistas nem maus uns para os outros.
Outra vez, usando scanners cerebrais: se exibirmos o rosto de uma pessoa de outra raça, para 75 % das pessoas (dados para estado-unidense), a parte do cérebro associada ao medo e à agressão — a amígdala — ativa-se em milissegundos, antes mesmo de a pessoa estar ciente do que está a ver. Mas façamos o estudo de outra forma: imagine que é um fanático de futebol, do tipo "A minha equipa é tudo para mim, morreria por ela!", e que há uma equipa rival que detesta. Mostram-lhe rostos em que as pessoas usam bonés com o logótipo da sua equipa ou da equipa rival. Se a imagem for de alguém com o logótipo da equipa rival, a sua amígdala ativa-se em milissegundos… no entanto, já não reage à raça da pessoa da imagem!
A raça, ou marcadores de crença religiosa, por exemplo, são incrivelmente fáceis de manipular. O nosso cérebro é extremamente maleável, o que é positivo, porque significa que podemos olhar para um boné de basebol e não ver a cor da pele, mas também é terrível, porque um bom demagogo pode influenciar fortemente quem deve ou não ser considerado humano, quem não conta quando é morto. Os bons demagogos sabem exatamente o que fazer. Não usam termos humanos para os “Outros”: os nazis diziam que os judeus eram roedores pestilentos; os nacionalistas europeus dizem que os muçulmanos são como um cancro na cultura europeia; os Hútus, no Ruanda, nunca se referiam aos Tutsis como Tutsis, mas, sim, como baratas…
E, depois, há Donald Trump, que é brilhante a fazer isso! A América mudou no dia em que Donald Trump desceu a famosa escada rolante na Trump Tower e fez um discurso dizendo: "temos de fazer algo sobre todos estes imigrantes do México. São assassinos, são violadores, não são como tu e eu". Uma parte tornou-se seguidora de Trump e, desde então, a palavra "mexicano" passou a evocar implicitamente assassinos e violadores. Outros americanos — infelizmente, apenas cerca de 48 % — não mudaram nesse sentido. Dizem: "este palhaço das revistas sociais é um racista incrivelmente perigoso."
A ciência está a ser posta em causa e assistimos a ataques à ciência, pelo menos, nos Estados Unidos, que terão consequências em todo o mundo.
Duplicar a esperança de vida na Europa Ocidental entre 1900 e 2000 é uma boa medida do sucesso e necessidade da ciência: isto aconteceu porque nos tornámos muito bons a fabricar medicamentos, a realizar cirurgias e a inventar scanners cerebrais. Aconteceu porque inventámos a saúde pública, tratámos da qualidade da água e evitámos que os bebés morressem de desidratação quando tinham febre... Sim, a ciência é algo bastante útil. Aquilo que está a acontecer é um desastre!
Entrevista por António Gomes da Costa, Bioquimico, Fundação Calouste Gulbenkian